sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

lolipop year



Pouco adiantam os bons começos e meios se os fins não forem os que mais
desejamos.
Este ano não começou da melhor forma, pelo meio também não foi o mais fantástico mas o fim... não o imaginaria mais delicioso nem nos meus dias de maior inspiração.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

0 encontro erótico começa com a visão do corpo desejado. Vestido ou nu, o corpo é uma presença: uma forma que, por um instante, é todas as formas do mundo. Mal abraçamos essa forma, deixamos de nos aperceber dela como presença e agarramo-lo como uma matéria concreta, palpável, que cabe nos nossos braços e que, todavia, é ilimitada. Ao abraçar a presença, deixamos de vê-la e ela própria deixa de ser presença. Dispersão do corpo desejado: vemos somente uns olhos que nos olham, uma garganta iluminada pela luz de uma lâmpada e depressa regressada a noite, o brilho de uma coxa, a sombra que desce do umbigo ao sexo. Cada um destes fragmentos vive por si só mas alude à totalidade do corpo. Esse corpo que, de súbito, se tornou infinito. 0 corpo do meu par deixa de ser uma forma e converte-se numa substância informe e imensa na qual, ao mesmo tempo, me perco e me recupero. Perdemo-nos como pessoas e recuperamo-nos como sensações. À medida que a sensação se torna mais intensa, o corpo que abraçamos faz-se mais e mais imenso. Sensação de infinidade: perdemos corpo nesse corpo. O abraço carnal é o apogeu do corpo e a perda do corpo. Também é a experiência da perda da identidade: dispersão das formas em mil sensações e visões, queda numa substância oceânica, evaporação da essência. Não há forma nem presença: há a onda que nos embala, a cavalgada pelas planícies da noite. Experiência singular: inicia-se pela abolição do corpo do nosso par, transformado numa substância infinita que palpita, expande-se, contrai-se e encerra-nos nas águas primordiais; um instante depois, a substância desvanece-se, o corpo volta a ser corpo e reaparece a presença. Somente podemos apercebermo-nos da mulher amada como forma que esconde uma alteridade irredutível ou como substância que se anula e nos anula.


"A Chama Dupla" - Octávio Paz

Natal

Há anos que vinha a saltar de Natal em Natal, acompanhada das mesmas memórias de sempre. Por sorte, sem melancolia ou enfado, mas também sem sentir nada maior que o desejo de ver correr uma das semanas mais lentas do ano.


Este Natal foi diferente. Escondi a cara no teu ombro e imaginei um recado do al berto:
"ouve-me, que o dia (de Natal) te seja limpo".


e foi.
Obrigado.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

filling in the blanks

creio profundamente que

as pessoas mais dispares entre si podem conviver perfeitamente no mesmo tempo e espaço.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

filling in the blanks

Não acredito tanto em nada como _______________
Não dou tantas palavras a nada como ________________
Não espero tantas horas por nada como ________________
Não sou tão inconstante em nada como ________________
Não sou tão incoerente em nada como ________________
Não sou tão intransigente com nada como ________________

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007


Fazes-me sentir tão mais extensa.. não sei como dizer.

poema de arrepiar

Não encontrarás aqui a fluência
de algum ventre polido ou verso límpido
porque estas palavras conhecem as paredes
que não ouviram a angústia e a vertigem

mas têm o sal das lágrimas obscuras
para sempre ignoradas para sempre futuras
nem ouvirás o som das aves frias
mas sentirás o arrepio de sombras sobre as pedras

ouvirás talvez um suor de silêncio


António Ramos Rosa

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007



No escribo sobre aquello que pasa por mi cabeza.
Más bien escribo sobre aquello por lo que mi cabeza pasa.
Vivo solo, encerrado en mi cuerpo.
Yo soy mi universo y mi solo firmamento.
A veces desde afuera una corriente de aire entra
cuando se abre la puerta y un montón de cosas viene
a instalarse en mi mesa.
!Cuánto desearía yo que como la puerta
mi cabeza pudiera abrirse siempre!
Pero, ay, esto ocurre sólo algunas veces.

Juan Calzadilla

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

O senhor Valéry gostava muito de café. Para o senhor Valéry trabalhar e beber café eram a mesma coisa. O seu trabalho, a partir de certa altura, era beber café.
Ele costumava dizer:
- Sem café não consigo trabalhar - e quem o ouvia julgava-o dependente dessa substância para fazer uma outra coisa.
Mas não.
O senhor Valéry explicava:
- Um corpo é tanto mais exacto quanto menos tarefas faz.
E clarificava ainda, exibindo as ideias filosóficas de que tanto se orgulhava:
- Uma causa vale menos do que um efeito e um efeito vale menos do que um acontecimento sem causa.
Por isso ele agia sem pensar nos efeitos da sua acção. Agia porque gostava da acção que fazia. E bastava-lhe.
O senhor Valéry, decidiu, então, desenhar uma chávena de café para provar a sua teoria.








Depois de acabar o desenho, ele disse para si próprio:

- Há dias em que não percebo nada de mim.
E como se encontrava confuso, o senhor Valéry decidiu ir beber um outro café.
-É uma maneira de resolver as coisas - pensava.



O Senhor Valéry, de Gonçalo M. Tavares

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

das letras aos olhos nos olhos

Há coisas das quais não conseguimos fugir. Podemos assobiar e fingir que nada se passa, olhar para baixo, pró lado, disfarçar o nervosinho com um risinho…mas há sentimentos que se não se deixam iludir com atitudes mariquinhas. Prendem-nos, obrigam-nos a enfrentar receios e embaraços.

Depois de ontem, nada mais é como antes… não se desmoronaram pedras, não fiquei paralisada, nem com medo do futuro… ontem veio finalmente a liberdade de sentir, aquela que só é possível depois de ouvirmos, olhos nos olhos, que somos correspondidos em igual medida.

Não é que eu tivesse esbarrado numa daquelas necessidades patetas, num “temos de falar” incontornável, até porque me sinto mais confortável nas letras do que nas palavras… mas foi tão bom ouvir-te, foi tão bom conseguir tentar pôr em palavras o que tenho vindo a sentir, o que tenho vindo a pensar…
Não é fácil traduzir o que o coração diz, explicar a que sente aquele aperto no peito, a que sabe esta felicidade toda… Não é fácil fazer entender quanta emoção há em cada palavra, em cada lágrima escondida atrás de um brilho nos olhos… Mas foi bom ter-me esforçado, caso contrário sufocaria, porque não há blog ou silêncios onde eu consiga fazer caber tudo o que gostava de te dizer.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Querido Pai Natal,
fui uma boa menina este ano, e quero pedir-te um presente muito especial.

Uma caixinha à prova de esquecimento, onde possa guardar dias e momentos, recordações e sussurros daqueles que ficam atrás da orelha.Quero uma caixinha à prova do tempo, onde possa colocar os tons de voz, o cheiro do chocolate quente, o calor do corpo nas noites frias, o cheiro do pescoço, a forma do peito, o contorno das sobrancelhas e o brilho dos olhos, o ritmo quando atravessamos o amor e o tempo.

Querido Pai Natal, é urgente, não sei quantas mais memórias vou conseguir guardar debaixo da minha pele.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007



hoje faz-de-conta que consigo colocar nas palavras o calor das tuas mãos,
e que consigo escrever a que sabem os teus beijos e o cheiro da tua pele.
hoje faz-de-conta que estás aqui comigo.






sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007


O que dizer dos teus sorrisos inconstantes e breves ?
O que chamar, diz-me, aos teus beijos suaves e leves?










quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Hoje no final da manhã fui tomar um café, precisava de um estímulo para tentar uma concentração honesta.

No caminho encontrei dois ou três colegas a quem não me apeteceu fazer mais do que um aceno breve. Não parei nem desviei o olhar até chegar à máquina e conseguir dar ao meu corpo aquilo que ele tanto precisava.

Pus uma moeda de 50ctm e quando me curvava para tirar o troco, fui puxada na direcção de uma porta que dá para uma arrecadação minúscula, entre a sala de fumo e a copa.

No escuro procurei um interruptor, para ver quem tinha sido o espertinho autor da brincadeira. Acendi a luz e vi-te a olhar para mim.
Estavas de fato, deves ter vindo em trabalho.. Fica-te bem. Não realça as formas mas dá-te um ar sexy.

Ainda meio tonta pela surpresa, caída no chão, endireitei-me apenas o suficiente para conseguir chegar ao fecho das tuas calças e cumprimentar o jr.

Segurei com força as tuas nádegas enquanto o acariciava com a minha língua. Queria ter a certeza que não estava a sonhar e que não te irias embora se eu piscasse os olhos.

“Então..” disseste-me, num tom de voz arrastado, atrevido, que me deixou arrepiada, “surpreendida por me ver?” Puxaste-me para cima e passaste a mão na minha cintura, acariciando a pele que espreitava entre as calças e a blusa.

“Pois.. muito” Respondi..

Não foi certamente uma das minhas melhores frases… mas naquela situação, o facto de ter conseguido dizer alguma coisa já me surpreendeu.

“Tinha uma reunião para estes lados e imaginei que gostasses de me ver”, disseste-me, enquanto fazias escorregar a tua mão pelas minhas calças, afastando e elástico das cuecas e continuando a descida lenta.. “E ela, achas que também está a gostar?”

“Sim, muito”, respondi ao mesmo tempo que ia apertando os joelhos um contra o outro. Mas, antes que eu pudesse fazer o que quer que fosse, deslizaste um dedo pelo meu corpo dentro.
Não tive nem tempo de respirar fundo, nem de olhar-te nos olhos e beijar-te como me apetecia, a tua outra mão já havia descido pela parte de trás das calças e chegava ao meio das minhas pernas.
Assim presa pelos teus braços, as pernas já trémulas, o corpo a ficar quente, soltei um pequeno gemido, que fez com que te risses baixinho.

“Hmmm, parece que sim” disseste, e em resposta ao meu gemido, prendeste-me entre os teus braços com firmeza e mexeste com mais vigor os dedos.

Tornava-se difícil conter outros gemidos que teimavam em escapar dos meus lábios.

“Sabes, C…” continuaste, olhando-me directamente nos olhos, falando e mexendo o dedo para baixo e para cima, aparentemente esquecido do facto de que estávamos a fazer aquilo atrás de uma porta que dava para uma sala cheia de pessoas, “a noite de ontem foi muito interessante”. Paraste e subiste os dedos, acariciando levemente o meu clítoris.

Não consegui conter um gemido bem alto. Impossível. Se fosse apenas a tua mão, ou apenas o teu tom de voz ou a tua expressão.. Mas tudo junto foi mais do que eu conseguia aguentar.

“Vim aqui para continuarmos o que começámos ontem”, disseste perto do meu ouvido, enquanto beijavas o meu pescoço.

“Mas…aqui??” perguntei, já completamente entregue a todas as tuas vontades.

Paraste um bocadinho… tiraste uma das mãos das minhas calças e seguraste o meu queixo. Olhaste-me de novo nos olhos e respondeste “Não, aqui não.. Cada coisa no seu lugar, tem calma.” E antes que eu pudesse responder, tiraste do bolso qualquer coisa que não percebi de imediato o que era… Mas que não demorei muito a saber…

O objecto desconhecido era uma garrafa pequena de água, que despejaste na minha cara.

A minha reacção foi empurrar-te para longe, e perguntar porque tinhas feito aquilo. Olhaste-me com a maior naturalidade e respondeste “Estava só a tentar imaginar como ficarias sexy com a blusa molhada, toda colada ao corpo”.

Abri a boca para te responder qualquer coisa, mas beijaste-me e disseste “Até logo”.

E foste embora sem dizer mais nada.

Fiquei durante alguns minutos sentada na salinha, as costas apoiadas na parede. A olhar para a blusa toda molhada.. os mamilos arrepiados.

De seguida, aproveitei o facto de ser hora de almoço e não estar ninguém a fumar, saí da salinha e vim cá acima buscar um casaco.

Fui finalmente tomar um café, o corpo dividido entre o frio provocado pela água e a tensão sexual deixada pela tua visita.

Ainda tentei pensar numa desculpa para sair e já não voltar cá esta tarde, precisava estar contigo.. mas o café, aos poucos, foi-me deixando mais calma.
Voltei, troquei a blusa molhada por uma t-shirt que tinha aqui para oferecer, vesti o casaco por cima e preparei-me para atravessar calmamente as horas que nos separam.
























todas as manhãs, o metro cheio de gente
todas as manhãs, eu e tu, num metro cheio de gente
todas as manhãs, eu e tu, cada um num metro diferente, cheio de gente
todas as manhãs, eu e tu, cada um num metro diferente, pisamos o mesmo chão, temos o mesmo olhar distante, os mesmos gestos indistintos que toda a gente.
todas as manhãs, eu e tu, vemos pessoas como nós, morrer enquanto esperam o fim do dia.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

"(...) Mas dei a conhecer o essencial da regra: no sistema,
a lei máxima é a reciprocidade das forças e a singularidade das órbitas.…


Se eu agi desinteressadamente,
unicamente ocupado em construir o "círculo da companhia",
então

não me devo preocupar, se ela é um corpo celeste que volta,
ou um cometa errante. Voltará se houver para ela uma órbita
nesse círculo, e se for ela a dever percorrê-la.



O olhar e o entendimento podem errar,
o amor não.

Ninguém, nesse caso,
se engana de figura, mas não importa quem
se pode enganar de amante.
"


Maria Gabriela Llansol - Contos do Mal Errante

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007



A única coisa positiva a tirar de um dia de tédio profundo é o facto de nos obrigar a sonhar.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007


Quantos somos, tu e eu?
Conhecemo-nos de verdade?
Vemos apenas metade?

Quantos somos quando amamos?
Um apenas? Dois, três?
Quando nos olhas, quantos vês?

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

gosto de ti e de tudo o que nos tem acontecido.

às vezes pergunto-me se sei mesmo pq gosto tanto de ti..
por vezes ocorrem-me respostas tão evidentes e inquestionáveis como a beleza do teu corpo.. do teu rosto.. como a ternura dos teus olhos pequeninos e brilhantes.
Mas, apesar de ser verdade, e de também gostar de ti pelo que é mais visível, há todo um mundo de coisas, pequeninas e grandes, que me chamam para ti.
Gosto de ti por te pareceres comigo, mesmo quando és ainda mais silencioso do que eu.
Gosto porque me dizes que sou bonita e me mimas, gosto porque me perguntas se tenho frio e se quero o teu casaco, gosto porque me fazes chocolate quente ou chá..gosto porque me dizes, sem melindres: "estás a empurrar-me da cama, chega-te pra lá" :)
Gosto porque não te importas que eu seja distraída e diga coisas tontas, gosto porque te ris quando já não quero falar mais ao telefone, gosto porque quando me seguras a mão eu esqueço o mundo à volta.
Gosto porque te admiro, gosto pelo teu humor, gosto pelo que tu gostas, gosto pelo que tu és e não vês.

Dizes e fazes as coisas mais inacreditáveis e nem te dás conta.

Gosto de ti quando estamos sozinhos...
e gosto sem medida quando te vejo com as tuas meninas. Ficas enorme, grandioso...Completo.
Acho que essa é nessas alturas que mais ÉS, que te revelas.

Gosto quando me apertas a cintura com as mãos, como o laço apertava a caixa de flores que recebi hoje.

Amo-te, assim, de braços abertos e na pontinha dos pés!

every morning I love you more and more

O dia amanheceu cedo e frio.
Um pequeno almoço demorado contigo sabia mesmo bem, mas o trabalho estava à minha espera...
Fiz-me à estrada, por entre ruas cinzentas e pessoas enregeladas e cabisbaixas.
Olhei para o céu, que se esforçava por ficar azul..
Esforcei-me também para chegar a casa depressa, enfiar-me na banheira e fazer de conta que a água quente eram os teus dedos a fazer festinhas na minha pele.
Fiz-me à estrada outra vez, o trabalho continuava à espera.
Agora, esforço-me por fazer-de-conta que ainda estou abraçada a ti, quentinha como nas manhãs demoradas de sábado.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007


Hoje planto um sorriso neste canteiro
no cyber-espaço
Semeio palavras e o meu corpo inteiro

Como se fosse o teu regaço.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.

Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ser senão o visível!



Alberto Caeiro

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

contra-relógio

hoje há uma distância tão grande entre as horas
que é preciso apanhar um comboio
para ir de um minuto a outro



quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Às vezes sinto palavras a correr até à boca e a saltar com toda a força. Numa urgência algo patética de dizer não só o que penso, mas sobretudo aquilo que sinto.

Gostar de ti é mais do que estar contigo todos os dias,
do que tomar um vinho na penumbra,
do que confessar-te alguns dos meus pecados.
É conseguir dizer-te que te gosto,
do que gosto, como gosto.
Sem vergonha.
Há uma distância ínfima
Entre o teu sexo e o meu.
Há uma palavra não dita
Entre o teu sexo e o meu.
Há o contacto adiado
O desejo simulado
As carícias indistintas
E a voz que a nada soa
E do corpo não ecoa
O querer e a vontade.
Há um ténue véu tecido
Entre o teu sexo e o meu.
Há um segredo escondido
Entre o teu sexo e o meu.
Há o grito reprimido
O prazer não consumado
O intuito definido
Num secreto esconderijo
Entre as coxas que se calam.

Há um encontro marcado
Entre o teu sexo e o meu.


by Encandescente

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

urgência

meio vestida
semi-nua
na minha casa
na tua
contra a parede
no sofá

sou só tua
toda tua

quero-te
já!

terça-feira, 20 de novembro de 2007

sem palavras

Todos seríamos bem mais felizes se o amor nos iluminasse tanto que nos permitisse ser sempre belos e sublimes, tanto nas palavras como nos gestos.

Gostava de conseguir expressar em beleza tudo o que sinto e encontrar sempre as palavras mais bonitas e adequadas a ti.

Na falta delas, escrevo-te estas linhas triviais, na esperança que te levem a adivinhar alguns dos meus pensamentos.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007


Não gosto de dias de chuva.

Não gosto da roupa e cabelos ensopados.
Não gosto dos sapatos enlameados.
Não gosto dos dedos gelados.

Não é romântico, não é poético.

Se quiser andar agarradinha a ti na rua não preciso que esteja a chover, nem do constrangimento de um guarda-chuva entre nós.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Vamos
tomar
uma
latinha
destas
todas
as
manhãs?



quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Vem, dá-me a mão :)

As palavras estão muito ditas
E o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.

Não me digas que há futuro
Nem passado.
Deixa o presente - claro muro
Sem coisas escritas.

Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
Pois é tudo demasiado.

Em águas de eternamente,
O cometa dos meus males
Afunda, desarvorado.

Fico ao teu lado.


Cecília Meirelles

The danish poet

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

de profundis amamus

Ontem às onze
fumaste um cigarro
encontrei-te sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros a pé
ninguém nos viu passar
excepto claro os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto pelos porteiros

Olha como só tu sabes olhar
a rua
os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não faz mal
abracem-me os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo

decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes muito
nós só temos a ver
com o presente perfeito

corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso

Mário Cesariny

straight forward

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Raramente me preocupo ou procuro saber se a vida tem mesmo algum sentido. Na maior parte do tempo limito-me a ser como as crianças, que não se colocam essas questões. Outras vezes, simplesmente vivo como se a questão nem existisse.
Entre uns dias e outros acontecem manhãs como as de hoje, em que saio de casa e não consigo manter-me ao nível da inocência com que tenho vindo a atravessar os dias.
Tudo me parece muito misterioso, à procura de respostas. Tudo me parece cansado, fatigado, desacreditado.

É urgente livrar-me desta sensação de “descobrir que o prémio afinal não é tão valioso como parecia”, libertar-me deste peso de engano.

O ideal era nem precisar confrontar-me com questão nenhuma. Até porque o mais provável seria concluir que todas as respostas soam ao mesmo: Se nos perguntamos em demasia, tudo é em vão.

Já dizia Homero: Insignificantes mortais que como as folhas desabrocham e aquecem de vida, e se alimentam do que o chão lhes dá, para logo murcharem e de seguida morrerem.

A única coisa capaz de me tranquilizar nestes momentos é a fé inabalável de que o amor traz mesmo algum sentido, tal como a arte, a música, o sexo.. Onde encontro felicidade, harmonia, que me vão ditando o ritmo aos passos.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que quer dizer, quando longamente os teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas de melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha cara ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.



Herberto Hélder

back to you


quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Que outra coisa posso dizer, senão repetir
continuamente que permaneço no mesmo
estado de graça de quando nos beijámos pela
primeira vez?

Todos os dias sinto a felicidade do amor honesto
e da cumplicidade.
Sinto-me bem, estou bem, sem vontade de outra
coisa que não continuar a acordar e adormecer
com o mesmo sorriso.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

To my boy lollypop




:)
Sinto-me tão bem na cumplicidade dos teus olhos..
é como estar sentada contigo nas cores quentes do final da tarde
todos os dias.

A cidade permanece igual, mas tem um sabor diferente

- o sabor da distância entre mim e eu quando estou contigo.

E, mesmo quando já não forem aceitáveis tantas lamechices
e tiver de colocar ao canto todos os lugares comuns,
vai sempre permanecer a beleza das noites juntos,
do teu corpo despido contra o meu,
da tua música nos meus ouvidos,
de um ou outro verso escondido nas tuas palavras.

porque sabe bem estar no lugar
em que se vê reflectido nos olhos o meu amor, meu amor, meu amor.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

today I'm feeling so...




«Digo do corpo,
o corpo:
e do meu corpo

digo no corpo
os sítios e os lugares

de feltro os seios
de lâminas os dentes
de seda as coxas
o dorso, em seus vagares

Lazeres do corpo:
os ombros,
as lisuras - o colo alto
a boca retomada

no fim das pernas
a porta da ternura,
dentro dos lábios
o fim da madrugada

Digo do corpo,
o corpo:
e do teu corpo,

as ancas breves
ao gosto dos abraços

os olhos fundos
e as mãos ardentes
com que me prendes
em sítios cansados

Vício de um corpo:
o teu
com o seu veneno

que bebo e sugo
até ao mais amargo,
ao mais cruel grau
do esgotamento
e onde em segredo
nado
em cada espasmo

Digo do corpo,
o corpo:
o nosso corpo

Digo do corpo
o gozo
do que faço

Digo do corpo
o uso
dos meus dias

e a alegria
do corpo sem disfarce»

Maria Teresa Horta

quarta-feira, 24 de outubro de 2007






escrevo
caminho
sobre nós
as letras saltam
no caminho
escrevo
entre tu e eu
as palavras ficam

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Do cimo do dia procuro-te


Chego finalmente ao cimo do dia,
na cadência lenta de mais uma jornada em cheio.

Das horas leves não resta senão o fantasma.

O corpo pede descanso e a alma mimos.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Pausa

uma pausa 1.. 2.. 3.. 4.. 5 minutos, contigo, num poema, e dissipa-se a tensão do dia

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

a tua música



A tua música impregna-me de ti
deixa-me a pele perfumada
a alma acetinada.
a tua música é como laços
envolve-me o corpo todo
como se estivesse nos teus braços.
a tua música faz-me querer ser bailarina
e dançar o tempo todo na tua caixinha.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

this girl I know..





conheço uma miúda que ficou tonta de amor
tudo nela revela uma paixão
capaz de levar às loucuras mais sublimes.
conheço uma miuda que deu um mergulho..
e que está deliciosamente a descobrir
a temperatura da água.

waiting



Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde

Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza

Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

Ary dos Santos



quarta-feira, 17 de outubro de 2007

carta ao jr.






“Entre os dois seria algo tão intenso que mexeria com os elementos, com o equilíbrio das coisas, como se dois anjos se amassem nas periferias do inferno”
A linguagem dos pássaros – de Ana Teresa Pereira




Dá-me a tua mão. Estar longe de ti é estar longe de mim própria.



terça-feira, 16 de outubro de 2007

Acordo e num impulso agarro-me às tuas pernas, a cabeça a descansar na tua barriga..
O despertador repete o toque a cada 9 minutos e eu permaneço, incapaz de me levantar, nem para nos preparar um café para nos despertar.. Só sei querer ficar a amar-te.. a apertar-te contra o meu corpo, como se conseguisse colar-te a mim por mais umas horas.
"é tarde.." penso eu, e tu talvez também.. mas permanecemos, deixamos o despertador tocar, só mais umas vezes.. e, se chegarmos atrasados, saberemos sempre que a culpa não foi nossa, mas da vontade que temos um do outro.

"Devias estar aqui rente aos meus lábios

para dividir comigo esta amargura

dos meus dias partidos um a um"
Eugénio de Andrade

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

it feels like years..

achar-me razoavelmente justa e bem sucedida na atribuição de um valor às coisas e factos tem-me ajudado a permanecer num limbo, dormente, sem grandes picos de emoções, em que tudo cai facilmente no esquecimento.
o truque consiste essencialmente em aprender a não sobrestimar o que nos delicia, de modo a que, quando nos virmos privados disso, não darmos em malucos.
contudo, por mais confortável que pareça, por mais que nos convençamos que nos satisfazemos perfeitamente com este gostar trivial.. temos sempre presente aquele peso, aquele espaço em branco, aquela urgência de sentir.

quando há dias nos conhecemos, estava na vida como estamos nas noites de insónias, viramo-nos para um lado e outro, mas não conseguimos que o conforto de cada posição dure mais do que uns segundos e continuamos a remexer-nos, até adormecer de cansaço o corpo.

não procurava propriamente um ombro, como quem procura o melhor lado da cama.. nem tinha qualquer expectativa que viesses resolver o que quer que fosse...

mas quando te encontrei apaixonei-me por tudo o que senti.
viciei-me na felicidade imediata, na alegria sem explicação.. viciei-me nas manhãs em que me sinto acordada, em andar na rua de mão dada.. viciei-me neste amor imenso.. e no modo como tudo é tão intenso.
desliguei por completo de todos os receios.

tinha saudades de me sentir assim.



here comes the sun

E apesar do conteúdo ser, finalmente, feliz, acredito que seja uma das notas mais dificeis de escrever.

A passagem pelos lugares comuns é redundante, mas tantas vezes necessária.
Encontrei-te. Ainda ontem. E por mais que o tempo passe, é revelador o facto de se manter a sensação única de pré-beijo com que anunciámos esta ligação.

Terei eventualmente passado horas de madrugadas intermináveis a duvidar das horas que se seguiriam.

Here comes the sun. A musica que ouvi no meu pior momento e que de certa forma me segurou.

E foi um toque...natural, mas tão profundo. Acabou por me acordar para o que tenho e o que posso vir a ter. Sem saber o quê, mas de uma forma que não me preocupa.

Só quero ir.

E decididamente, só quero que me leves.

domingo, 14 de outubro de 2007

quinta-feira, 11 de outubro de 2007


"A pessoa isolada é uma abstracção teórica que não tem sentido, porque cada um é uma consequência dos que se cruzam no trajecto de vida e compartilham o circunstancialismo existencial. "
Nuno Grande - in Jornal de Notícias

Há algum tempo constestaria com facilidade esta afirmação, hoje estou em plena harmonia com este e todos os outros discursos que exaltam o amor e a riqueza das relações humanas.
Não conheço outra coisa capaz de sensações tão intensas e imprevistas quanto o amar alguém.
Como se de repente tudo o que existe de belo e sublime passasse a fazer parte dessa pessoa.
Miss you *


quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Ficámos um instante, só um instante, defronte um do outro, sem sabermos o que dizer.
Já também ao telefone, de quando em quando, nos tinha acontecido o mesmo.
Ouvíamos então , descompassados, as nossas respirações, adivinhando que elas tentavam- em que ponto do espaço?- afinar uma pela outra a respectiva cadência. Depois, em torrente, frases que nem chegámos a terminar:
“Pareceu-me tão horrível se…”
”Também a mim. Eu é que não…”
”E só de pensar que… que podia acontecer… que nunca mais…”
“Foi justamente o que pensei, mas…”
“Nem chego a perceber como fui capaz de…”
”Não diga isso. O importante é que…”
Rimos, de repente, tão ridículos nos estávamos a sentir.
“ E quando é que…?
”Finalmente, as únicas frases completas:
“ Quando é que nos podemos ver?”
“Hoje. Pode ser hoje. Pode ser agora. Ia mesmo agora para Lisboa.”
Emendou: “A Lisboa”. (…)
“Não era por isto. Não, não era por isto. Eu acho que não era por isto.”
Depois, cavando-se um vincozinho de dúvida entre as sobrancelhas :
“É como se diz? Ou para isto?”
“Depende . Tanto faz.”
E já nos estamos a beijar. E não só com as bocas: com os dedos, também, que vão de leve modelando o volume das testas o relevo das pálpebras, o contorno das orelhas, a espessura dos cabelos. É como se fôssemos afinal uma cega e um cego, de há muito conhecidos, de há muito separados, que ainda mal acreditam no milagre de se encontrarem.

David Mourão- Ferreira







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