Ficámos um instante, só um instante, defronte um do outro, sem sabermos o que dizer.Já também ao telefone, de quando em quando, nos tinha acontecido o mesmo.
Ouvíamos então , descompassados, as nossas respirações, adivinhando que elas tentavam- em que ponto do espaço?- afinar uma pela outra a respectiva cadência. Depois, em torrente, frases que nem chegámos a terminar:
“Pareceu-me tão horrível se…”
”Também a mim. Eu é que não…”
”E só de pensar que… que podia acontecer… que nunca mais…”
“Foi justamente o que pensei, mas…”
“Nem chego a perceber como fui capaz de…”
”Não diga isso. O importante é que…”
Rimos, de repente, tão ridículos nos estávamos a sentir.
“ E quando é que…?
”Finalmente, as únicas frases completas:
“ Quando é que nos podemos ver?”
“Hoje. Pode ser hoje. Pode ser agora. Ia mesmo agora para Lisboa.”
Emendou: “A Lisboa”. (…)
“Não era por isto. Não, não era por isto. Eu acho que não era por isto.”
Depois, cavando-se um vincozinho de dúvida entre as sobrancelhas :
“É como se diz? Ou para isto?”
“Depende . Tanto faz.”
E já nos estamos a beijar. E não só com as bocas: com os dedos, também, que vão de leve modelando o volume das testas o relevo das pálpebras, o contorno das orelhas, a espessura dos cabelos. É como se fôssemos afinal uma cega e um cego, de há muito conhecidos, de há muito separados, que ainda mal acreditam no milagre de se encontrarem.
David Mourão- Ferreira
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