sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

lolipop year



Pouco adiantam os bons começos e meios se os fins não forem os que mais
desejamos.
Este ano não começou da melhor forma, pelo meio também não foi o mais fantástico mas o fim... não o imaginaria mais delicioso nem nos meus dias de maior inspiração.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

0 encontro erótico começa com a visão do corpo desejado. Vestido ou nu, o corpo é uma presença: uma forma que, por um instante, é todas as formas do mundo. Mal abraçamos essa forma, deixamos de nos aperceber dela como presença e agarramo-lo como uma matéria concreta, palpável, que cabe nos nossos braços e que, todavia, é ilimitada. Ao abraçar a presença, deixamos de vê-la e ela própria deixa de ser presença. Dispersão do corpo desejado: vemos somente uns olhos que nos olham, uma garganta iluminada pela luz de uma lâmpada e depressa regressada a noite, o brilho de uma coxa, a sombra que desce do umbigo ao sexo. Cada um destes fragmentos vive por si só mas alude à totalidade do corpo. Esse corpo que, de súbito, se tornou infinito. 0 corpo do meu par deixa de ser uma forma e converte-se numa substância informe e imensa na qual, ao mesmo tempo, me perco e me recupero. Perdemo-nos como pessoas e recuperamo-nos como sensações. À medida que a sensação se torna mais intensa, o corpo que abraçamos faz-se mais e mais imenso. Sensação de infinidade: perdemos corpo nesse corpo. O abraço carnal é o apogeu do corpo e a perda do corpo. Também é a experiência da perda da identidade: dispersão das formas em mil sensações e visões, queda numa substância oceânica, evaporação da essência. Não há forma nem presença: há a onda que nos embala, a cavalgada pelas planícies da noite. Experiência singular: inicia-se pela abolição do corpo do nosso par, transformado numa substância infinita que palpita, expande-se, contrai-se e encerra-nos nas águas primordiais; um instante depois, a substância desvanece-se, o corpo volta a ser corpo e reaparece a presença. Somente podemos apercebermo-nos da mulher amada como forma que esconde uma alteridade irredutível ou como substância que se anula e nos anula.


"A Chama Dupla" - Octávio Paz

Natal

Há anos que vinha a saltar de Natal em Natal, acompanhada das mesmas memórias de sempre. Por sorte, sem melancolia ou enfado, mas também sem sentir nada maior que o desejo de ver correr uma das semanas mais lentas do ano.


Este Natal foi diferente. Escondi a cara no teu ombro e imaginei um recado do al berto:
"ouve-me, que o dia (de Natal) te seja limpo".


e foi.
Obrigado.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

filling in the blanks

creio profundamente que

as pessoas mais dispares entre si podem conviver perfeitamente no mesmo tempo e espaço.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

filling in the blanks

Não acredito tanto em nada como _______________
Não dou tantas palavras a nada como ________________
Não espero tantas horas por nada como ________________
Não sou tão inconstante em nada como ________________
Não sou tão incoerente em nada como ________________
Não sou tão intransigente com nada como ________________

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007


Fazes-me sentir tão mais extensa.. não sei como dizer.

poema de arrepiar

Não encontrarás aqui a fluência
de algum ventre polido ou verso límpido
porque estas palavras conhecem as paredes
que não ouviram a angústia e a vertigem

mas têm o sal das lágrimas obscuras
para sempre ignoradas para sempre futuras
nem ouvirás o som das aves frias
mas sentirás o arrepio de sombras sobre as pedras

ouvirás talvez um suor de silêncio


António Ramos Rosa

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007



No escribo sobre aquello que pasa por mi cabeza.
Más bien escribo sobre aquello por lo que mi cabeza pasa.
Vivo solo, encerrado en mi cuerpo.
Yo soy mi universo y mi solo firmamento.
A veces desde afuera una corriente de aire entra
cuando se abre la puerta y un montón de cosas viene
a instalarse en mi mesa.
!Cuánto desearía yo que como la puerta
mi cabeza pudiera abrirse siempre!
Pero, ay, esto ocurre sólo algunas veces.

Juan Calzadilla

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

O senhor Valéry gostava muito de café. Para o senhor Valéry trabalhar e beber café eram a mesma coisa. O seu trabalho, a partir de certa altura, era beber café.
Ele costumava dizer:
- Sem café não consigo trabalhar - e quem o ouvia julgava-o dependente dessa substância para fazer uma outra coisa.
Mas não.
O senhor Valéry explicava:
- Um corpo é tanto mais exacto quanto menos tarefas faz.
E clarificava ainda, exibindo as ideias filosóficas de que tanto se orgulhava:
- Uma causa vale menos do que um efeito e um efeito vale menos do que um acontecimento sem causa.
Por isso ele agia sem pensar nos efeitos da sua acção. Agia porque gostava da acção que fazia. E bastava-lhe.
O senhor Valéry, decidiu, então, desenhar uma chávena de café para provar a sua teoria.








Depois de acabar o desenho, ele disse para si próprio:

- Há dias em que não percebo nada de mim.
E como se encontrava confuso, o senhor Valéry decidiu ir beber um outro café.
-É uma maneira de resolver as coisas - pensava.



O Senhor Valéry, de Gonçalo M. Tavares

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

das letras aos olhos nos olhos

Há coisas das quais não conseguimos fugir. Podemos assobiar e fingir que nada se passa, olhar para baixo, pró lado, disfarçar o nervosinho com um risinho…mas há sentimentos que se não se deixam iludir com atitudes mariquinhas. Prendem-nos, obrigam-nos a enfrentar receios e embaraços.

Depois de ontem, nada mais é como antes… não se desmoronaram pedras, não fiquei paralisada, nem com medo do futuro… ontem veio finalmente a liberdade de sentir, aquela que só é possível depois de ouvirmos, olhos nos olhos, que somos correspondidos em igual medida.

Não é que eu tivesse esbarrado numa daquelas necessidades patetas, num “temos de falar” incontornável, até porque me sinto mais confortável nas letras do que nas palavras… mas foi tão bom ouvir-te, foi tão bom conseguir tentar pôr em palavras o que tenho vindo a sentir, o que tenho vindo a pensar…
Não é fácil traduzir o que o coração diz, explicar a que sente aquele aperto no peito, a que sabe esta felicidade toda… Não é fácil fazer entender quanta emoção há em cada palavra, em cada lágrima escondida atrás de um brilho nos olhos… Mas foi bom ter-me esforçado, caso contrário sufocaria, porque não há blog ou silêncios onde eu consiga fazer caber tudo o que gostava de te dizer.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Querido Pai Natal,
fui uma boa menina este ano, e quero pedir-te um presente muito especial.

Uma caixinha à prova de esquecimento, onde possa guardar dias e momentos, recordações e sussurros daqueles que ficam atrás da orelha.Quero uma caixinha à prova do tempo, onde possa colocar os tons de voz, o cheiro do chocolate quente, o calor do corpo nas noites frias, o cheiro do pescoço, a forma do peito, o contorno das sobrancelhas e o brilho dos olhos, o ritmo quando atravessamos o amor e o tempo.

Querido Pai Natal, é urgente, não sei quantas mais memórias vou conseguir guardar debaixo da minha pele.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007



hoje faz-de-conta que consigo colocar nas palavras o calor das tuas mãos,
e que consigo escrever a que sabem os teus beijos e o cheiro da tua pele.
hoje faz-de-conta que estás aqui comigo.






sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007


O que dizer dos teus sorrisos inconstantes e breves ?
O que chamar, diz-me, aos teus beijos suaves e leves?










quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Hoje no final da manhã fui tomar um café, precisava de um estímulo para tentar uma concentração honesta.

No caminho encontrei dois ou três colegas a quem não me apeteceu fazer mais do que um aceno breve. Não parei nem desviei o olhar até chegar à máquina e conseguir dar ao meu corpo aquilo que ele tanto precisava.

Pus uma moeda de 50ctm e quando me curvava para tirar o troco, fui puxada na direcção de uma porta que dá para uma arrecadação minúscula, entre a sala de fumo e a copa.

No escuro procurei um interruptor, para ver quem tinha sido o espertinho autor da brincadeira. Acendi a luz e vi-te a olhar para mim.
Estavas de fato, deves ter vindo em trabalho.. Fica-te bem. Não realça as formas mas dá-te um ar sexy.

Ainda meio tonta pela surpresa, caída no chão, endireitei-me apenas o suficiente para conseguir chegar ao fecho das tuas calças e cumprimentar o jr.

Segurei com força as tuas nádegas enquanto o acariciava com a minha língua. Queria ter a certeza que não estava a sonhar e que não te irias embora se eu piscasse os olhos.

“Então..” disseste-me, num tom de voz arrastado, atrevido, que me deixou arrepiada, “surpreendida por me ver?” Puxaste-me para cima e passaste a mão na minha cintura, acariciando a pele que espreitava entre as calças e a blusa.

“Pois.. muito” Respondi..

Não foi certamente uma das minhas melhores frases… mas naquela situação, o facto de ter conseguido dizer alguma coisa já me surpreendeu.

“Tinha uma reunião para estes lados e imaginei que gostasses de me ver”, disseste-me, enquanto fazias escorregar a tua mão pelas minhas calças, afastando e elástico das cuecas e continuando a descida lenta.. “E ela, achas que também está a gostar?”

“Sim, muito”, respondi ao mesmo tempo que ia apertando os joelhos um contra o outro. Mas, antes que eu pudesse fazer o que quer que fosse, deslizaste um dedo pelo meu corpo dentro.
Não tive nem tempo de respirar fundo, nem de olhar-te nos olhos e beijar-te como me apetecia, a tua outra mão já havia descido pela parte de trás das calças e chegava ao meio das minhas pernas.
Assim presa pelos teus braços, as pernas já trémulas, o corpo a ficar quente, soltei um pequeno gemido, que fez com que te risses baixinho.

“Hmmm, parece que sim” disseste, e em resposta ao meu gemido, prendeste-me entre os teus braços com firmeza e mexeste com mais vigor os dedos.

Tornava-se difícil conter outros gemidos que teimavam em escapar dos meus lábios.

“Sabes, C…” continuaste, olhando-me directamente nos olhos, falando e mexendo o dedo para baixo e para cima, aparentemente esquecido do facto de que estávamos a fazer aquilo atrás de uma porta que dava para uma sala cheia de pessoas, “a noite de ontem foi muito interessante”. Paraste e subiste os dedos, acariciando levemente o meu clítoris.

Não consegui conter um gemido bem alto. Impossível. Se fosse apenas a tua mão, ou apenas o teu tom de voz ou a tua expressão.. Mas tudo junto foi mais do que eu conseguia aguentar.

“Vim aqui para continuarmos o que começámos ontem”, disseste perto do meu ouvido, enquanto beijavas o meu pescoço.

“Mas…aqui??” perguntei, já completamente entregue a todas as tuas vontades.

Paraste um bocadinho… tiraste uma das mãos das minhas calças e seguraste o meu queixo. Olhaste-me de novo nos olhos e respondeste “Não, aqui não.. Cada coisa no seu lugar, tem calma.” E antes que eu pudesse responder, tiraste do bolso qualquer coisa que não percebi de imediato o que era… Mas que não demorei muito a saber…

O objecto desconhecido era uma garrafa pequena de água, que despejaste na minha cara.

A minha reacção foi empurrar-te para longe, e perguntar porque tinhas feito aquilo. Olhaste-me com a maior naturalidade e respondeste “Estava só a tentar imaginar como ficarias sexy com a blusa molhada, toda colada ao corpo”.

Abri a boca para te responder qualquer coisa, mas beijaste-me e disseste “Até logo”.

E foste embora sem dizer mais nada.

Fiquei durante alguns minutos sentada na salinha, as costas apoiadas na parede. A olhar para a blusa toda molhada.. os mamilos arrepiados.

De seguida, aproveitei o facto de ser hora de almoço e não estar ninguém a fumar, saí da salinha e vim cá acima buscar um casaco.

Fui finalmente tomar um café, o corpo dividido entre o frio provocado pela água e a tensão sexual deixada pela tua visita.

Ainda tentei pensar numa desculpa para sair e já não voltar cá esta tarde, precisava estar contigo.. mas o café, aos poucos, foi-me deixando mais calma.
Voltei, troquei a blusa molhada por uma t-shirt que tinha aqui para oferecer, vesti o casaco por cima e preparei-me para atravessar calmamente as horas que nos separam.
























todas as manhãs, o metro cheio de gente
todas as manhãs, eu e tu, num metro cheio de gente
todas as manhãs, eu e tu, cada um num metro diferente, cheio de gente
todas as manhãs, eu e tu, cada um num metro diferente, pisamos o mesmo chão, temos o mesmo olhar distante, os mesmos gestos indistintos que toda a gente.
todas as manhãs, eu e tu, vemos pessoas como nós, morrer enquanto esperam o fim do dia.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

"(...) Mas dei a conhecer o essencial da regra: no sistema,
a lei máxima é a reciprocidade das forças e a singularidade das órbitas.…


Se eu agi desinteressadamente,
unicamente ocupado em construir o "círculo da companhia",
então

não me devo preocupar, se ela é um corpo celeste que volta,
ou um cometa errante. Voltará se houver para ela uma órbita
nesse círculo, e se for ela a dever percorrê-la.



O olhar e o entendimento podem errar,
o amor não.

Ninguém, nesse caso,
se engana de figura, mas não importa quem
se pode enganar de amante.
"


Maria Gabriela Llansol - Contos do Mal Errante

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007



A única coisa positiva a tirar de um dia de tédio profundo é o facto de nos obrigar a sonhar.