
Pouco adiantam os bons começos e meios se os fins não forem os que mais
desejamos.
Este ano não começou da melhor forma, pelo meio também não foi o mais fantástico mas o fim... não o imaginaria mais delicioso nem nos meus dias de maior inspiração.

0 encontro erótico começa com a visão do corpo desejado. Vestido ou nu, o corpo é uma presença: uma forma que, por um instante, é todas as formas do mundo. Mal abraçamos essa forma, deixamos de nos aperceber dela como presença e agarramo-lo como uma matéria concreta, palpável, que cabe nos nossos braços e que, todavia, é ilimitada. Ao abraçar a presença, deixamos de vê-la e ela própria deixa de ser presença. Dispersão do corpo desejado: vemos somente uns olhos que nos olham, uma garganta iluminada pela luz de uma lâmpada e depressa regressada a noite, o brilho de uma coxa, a sombra que desce do umbigo ao sexo. Cada um destes fragmentos vive por si só mas alude à totalidade do corpo. Esse corpo que, de súbito, se tornou infinito. 0 corpo do meu par deixa de ser uma forma e converte-se numa substância informe e imensa na qual, ao mesmo tempo, me perco e me recupero. Perdemo-nos como pessoas e recuperamo-nos como sensações. À medida que a sensação se torna mais intensa, o corpo que abraçamos faz-se mais e mais imenso. Sensação de infinidade: perdemos corpo nesse corpo. O abraço carnal é o apogeu do corpo e a perda do corpo. Também é a experiência da perda da identidade: dispersão das formas em mil sensações e visões, queda numa substância oceânica, evaporação da essência. Não há forma nem presença: há a onda que nos embala, a cavalgada pelas planícies da noite. Experiência singular: inicia-se pela abolição do corpo do nosso par, transformado numa substância infinita que palpita, expande-se, contrai-se e encerra-nos nas águas primordiais; um instante depois, a substância desvanece-se, o corpo volta a ser corpo e reaparece a presença. Somente podemos apercebermo-nos da mulher amada como forma que esconde uma alteridade irredutível ou como substância que se anula e nos anula.

Há coisas das quais não conseguimos fugir. Podemos assobiar e fingir que nada se passa, olhar para baixo, pró lado, disfarçar o nervosinho com um risinho…mas há sentimentos que se não se deixam iludir com atitudes mariquinhas. Prendem-nos, obrigam-nos a enfrentar receios e embaraços.
Querido Pai Natal,