[os filósofos] estudaram tão minuciosamente e tão a fundo todas as formas
do pensamento, que essas mesmas formas lhes vão encobrir o próprio pensamento.
Se lhes puser estas verdades diante do nariz, hão-de querer tapar-lhe os olhos
com outro pedaço de forma. Acabaram, de facto, por conseguir enriquecer a sua forma
com grande número de peças e engenhosos dispositivos mecânicos, de modo que
tentam confundi-la com o próprio pensamento em questão, cuja natureza,
puramente física e de ordem reflexa, emotiva e sensorial, lhes escapa totalmente.
— Não percebi nada — disse Manjamanga.
— É como no jazz — disse Ângelo. — O transe!
— Estou mais ou menos a ver — disse Manjamanga. — Quer você dizer que do mesmo modo que há indivíduos sensíveis ao jazz, outros há que o não são.
— Isso mesmo — disse Ângelo. — Quando se entra em transe, é curiosíssimo ver as pessoas a falar, a manobrar as suas formas. Quero eu dizer: quando se sente o pensamento, quando se sente a coisa material.
— Você é um bocado confuso — disse Manjamanga.
— Nem pretendo ser claro; aborrece-me imenso tentar explicar uma coisa que para mim é da maior clareza — disse Ângelo. — E, aliás, estou-me perfeitamente nas tintas para que os outros possam partilhar ou não dos meus pontos de vista.
— Não se pode discutir consigo — disse Manjamanga.
— Crei bem que não — disse Ângelo. — Mas, ao menos, há a circunstância atenuante de ser esta a primeira vez, desde o início, que me atrevo a dizer qualquer coisa deste género.»
Boris Vian - "O Outono em Pequim"
Gosto de pessoas livres no seu pensar.
Não gosto de dar explicações.
Gosto da indiferença às opiniões contrárias.
Não gosto de pessoas irredutíveis.
Gosto de só considerar os pontos de vista que me apetecem.
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